“Há crianças sem lugar no mundo”. O mundo reserva um lugar, um destino à Janaína: o de exclusão, da medicação, do abrandamento, da calmaria. Esse é o destino de Janaína: um destino já traçado, com a repetição do mesmo, do encarceramento, da vida vigiada e controlada.
A história de Janaína é marcada por uma báscula: muito/pouco, tudo/nada, pertencer/ser excluída, ganhos/perdas. Dessa forma, sua errância pela vida é como uma fotografia de sua constituição interrompida ou fracassada.
Estamos diante de uma criança –e depois de uma mulher- que traz um registro de ausência e não, como estamos acostumados a pensar, a ausência de registro. Janaína presentifica, a todo instante, a ausência que traz em si, marcada em sua pele por suas próprias mordidas, pelo fechamento e isolamento diante do outro, pela voz não mais ouvida, pelo diagnóstico que soterra sua expressão, pelo medicamento que a mantém em seu devido lugar, sentada em sua cama, esperando a vida passar.
“Cuidar desse encontro com Janaína”: é isso que faz a equipe que sempre teve essa aposta. Um encontro com o diferente, com o inusitado, com o imprevisto, com aquilo que escapa ao que esperamos, aos laudos, diagnósticos e prognósticos. Como a própria equipe diz, um encontro como aquele que faz uma mãe com seu bebê, ouvindo palavras em seus grunhidos, lendo gestos em seu balançar, apostando em algo do humano para além do orgânico, fazendo inscrição de marcas, pedindo licença e convidando-o a partilhar a vida. Um encontro sem técnicas, medições, prevenções. Pouca ou nenhuma certeza: apenas uma vontade de estar ali ao seu lado, com celofanes, canções, brincadeiras ou o que quer que seja, no pátio, na rua, no zoológico, em seu quarto de “insana”, isso não importa. No encontro, a surpresa: Janaína fala, pede beijo, aconchega-se no abraço, escolhe o que quer ganhar, sorri ao reencontrar-se com suas canções. Janaína não se calou, mas nem sempre pode ser ouvida.
Janaína não nos ensina como trabalhar com crianças psicóticas, não nos mostra o que tem mais efeito no tratamento dessas crianças, não é um clássico exemplo com alucinações, delírio, agressividade, não aponta saídas numa época em que estamos tão preocupados com a inclusão escolar dessas crianças. Não há em sua trajetória um exemplo a ser seguido, com fórmulas e receitas milagrosas da contemporaneidade, em que a aposta é numa medicação, num método, na ciência. Que bom! Janaína abre a cortina do encontro com o diferente, escancara o que vem sendo feito, nos endereça novas inquietações e perguntas sem respostas. Não há outro caminho senão o do encontro. Fiquemos, então, com a linda frase de Miriam: “Temos que cuidar desse encontro com Janaína”.
Texto escrito por
Fernanda Braga de Araújo
e apresentado no II Colóquio de Educação Inclusiva,
promovido pela UNISA em 23/10/2008
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